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29
Mai 10

Em Portugal, o valor do carro é inversamente proporcional à qualidade do condutor. Esta regra é válida em pelo menos 80% dos casos

Quase abro uma garrafa de champanhe, quando vejo um Mercedes, BMW, Audi, ou Jipe novo (a maioria dos veículos comprados pelos nossos parolos ricos, remediados, e/ou exibicionistas), fazer pisca ao mudar de faixa, ou cumprir outra regra de trânsito básica. Outros carros caros, de outras marcas, têm o mesmo comportamento.

Este relaxe constante e deliberado, facilmente comprovável no dia-a-dia, tem a ver com o tipo de tugas que compram estes veículos: sentem-se ACIMA dos restantes mortais, e fazem questão de lhes demonstrar isso - através da sua negligência criminosa, que confundem com superioridade.

Na verdade, são criaturas reles e nocivas ao trânsito, cuja pretensa "superioridade" começa e acaba nos carros que conduzem, muitos deles obtidos de formas manhosas e inconfessáveis.

Ou seja, além de em muitos casos serem trafulhas na sua vida pessoal, conduzem como se andassem sozinhos na estrada. Mas - surpresa! - NÃO ANDAM. E os restantes condutores não lhes devem nada, excepto a obrigação moral de lhes enfiar os cornos pelo tubo de escape, quando se armam em mete-nojo. Nota: nos carros com dois tubos de escape, é recomendável tentar enfiar-lhes a cornadura por ambos, a ver se cabe em algum deles. Nunca se sabe.

Estes palhaços enquadram-se geralmente nos Cretinos (ver posts anteriores), sendo nos casos mais graves Chico-espertos. De vez em quando, as esposas, geralmente dondocas acéfalas, conduzem o carrito luxuoso do parolo-marido. São invariavelmente Toscas.

O Bom Condutor mantém sempre estes parolos sob vigilância, pois o seu comportamento é inesperado: tanto podem andar demasiado depressa ou demasiado devagar, fazer pisca como não, parar num sítio normal ou em plena auto-estrada, só porque o telemóvel tocou ou decidiram retocar a maquiagem. Julgam-se no direito de tudo.

Não desperdice piedade nestes pulhas: quanto mais caro o carro, maior o risco que lhes devemos fazer quando está mal parado, e maior a cabeçada nas beiças do imbecil que o conduz.

As únicas excepções são idosos - nesse caso, basta um belo risco do capot ao porta-bagagens, e um aviso sério: se tem dinheiro para este carro, também devia ter para lições de condução! Nos outros casos, acumule um belo risco, com uma ainda melhor cabeçada.

publicado por bom condutor às 20:37

06
Out 08

Quem circular pela primeira vez por uma cidade portuguesa, poderá pensar que inventámos um sistema engenhoso para duplicar os lugares de estacionamento: como tanta gente deixa os carros mal parados, deve haver alguma forma de estes se afastarem sozinhos, quando necessário. Ou pelo menos, de enviarem um sinal automático aos condutores, que em questão de segundos aparecem para os afastar.

Estará, porém, completamente errado. A verdade é que os portugueses estacionam onde lhes apetece, porque se estão a borrifar para os outros. Em vez de perderem uns minutos à procura de um lugar válido, preferem ser indulgentes e egoístas, e sujeitar os outros a esperar por eles. Além de bloquearem os carros que estão bem estacionados, obstruem a via pública, causando embaraços escusados aos outros condutores.

Os especialistas neste estacionamento vale-tudo, são naturalmente os Cretinos, os Chico-espertos, e os Profissionais mete-nojo. Estes últimos fazem ainda questão de lhe dizer muito ofendidos, quando voltam finalmente para lhe desobstruir o caminho: "ó amigo, eu estou a trabalhar!". Atentemos nesta mentalidade: como ele está a trabalhar, você tem a obrigação de esperar por ele. Pouco importa que esteja também a trabalhar, ou que tenha de levar alguém ao hospital durante um ataque cardíaco: seja qual for o motivo, é irrelevante, porque ele "está a trabalhar".

Quanto aos restantes, nem sequer fingem ter razão: são sacanas comodistas e desprezíveis, que não se importam de andar quilómetros dentro de um centro comercial, mas são incapazes de caminhar mais de três metros desde o carro até onde precisam. Quer vão comprar o jornal ou fazer uma cirurgia dentária, têm de deixar o carro mesmo em frente à porta.

Não admira que Portugal seja atrasado: qualquer sociedade assenta no respeito pelos outros, e isso é uma doença rara neste país. Em nome da nossa sociedade, e da nossa pachorra, é preciso fazer algo para impedir estes palhaços de deixarem o carro em segunda fila. A solução natural seria chamar a polícia, mas como lhes dá mais trabalho do que estarem sentados a passar multas, não se pode contar com eles. Sugiro pois que tome medidas por si próprio:

1. Quando estacionar, deixe sempre um papel claramente visível: "AVISO: se me bloquear o carro, parto-lhe a boca toda. A sério." - e cumpra.

2. Se for a andar a pé e vir um carro parado em 2ª fila, sem ninguém lá dentro, aguarde durante um minuto. Se o condutor não aparecer, utilize a técnica dos arrumadores despeitados: com uma chave, deixe um belo risco de uma ponta à outra. Escreva "MAL ESTACIONADO!" no final, para não haver dúvidas. Alguns portugueses só aprendem quando a lição lhes chega ao bolso.

Se todos tomarmos estas medidas, a praga dos estacionamentos em segunda fila há-de ser erradicada. Ou, em alternativa, os dentistas e os pintores de automóveis vão passar a ter muitos novos clientes. Mesmo muitos.

publicado por bom condutor às 11:27

27
Set 08

Em Inglaterra, é comum verem-se casas com jardins muito bem tratados, cujos donos se esmeram de uma forma que transcende um mero hobby, e se torna quase numa obsessão. Em Portugal, é raro encontrar este nível de obsessão estética, excepto talvez no tuning.
 

A "arte" do tuning, tal como a jardinagem, requer objectivos a longo prazo e dedicação constante. Isto até poderia ser admirável, se o tuning tivesse algum mérito intrínseco ou utilidade prática, mas sejamos realistas: não tem. Logo, e no fundo, trata-se apenas de uma mania parva.
 

O típico adepto do tuning enquadra-se geralmente nas categorias do Ayrton Senna e do Chico-esperto: quer seja um jovem imberbe que usa boné a qualquer hora do dia e da noite e ouve hip-hop aos berros, ou um trintão com o "fascínio dos carros" que nunca saiu da adolescência, o facto é que gosta de dar nas vistas, e sentir-se muito especial. Como não é especial - nem perante os outros, nem perante si próprio - tenta ultrapassar esta frustração através do seu carro, projectando nele a sua mediocridade.
 

Sem entrarmos em tretas psicomerdológicas que não fazem o género deste blog, basta dizer que são crianças grandes, que abandonaram os carrinhos de brincar a contragosto, e utilizam agora carros a sério como montra do seu desejo de atenção. Sempre que vejo um aileron, um escape despropositado, umas jantes trabalhadas, umas "saias" que não toleram nenhum passeio, um subwoofer absurdo, autocolantes parvos, faróis extravagantes, ou uma pintura de rally, sei sempre que estou perante um ser infantil e retardado.
 

Consigo até aceitar entusiastas de carros antigos, que devotam o seu tempo a preservar clássicos; mas sou incapaz de compreender um palerma que artilha o seu carro contemporâneo, da forma mais banal, suburbana e foleira que é possível, enquanto se julga o Rembrandt lá da rua. Um carro é apenas um meio de transporte, e quem vê nele mais do que isso, precisa de rever as suas prioridades.
 

Dirão os mais atentos: "mas acrescentar algo artificial à nossa imagem, seja no carro, na roupa, ou nos gostos musicais, não é exclusivo dos adeptos do tuning: todos queremos sentir-nos diferentes, e o tuning é apenas uma manifestação deste desejo de individualidade". Sem dúvida, mas os do tuning tendem a ser dos mais irritantes. Fazem questão de berrar a sua pretensa individualidade, aos olhos e aos ouvidos dos outros. Ignoram que a única individualidade reside no pensamento independente, em usar o que é realmente único - o seu cérebro - e não em coisas transitórias como o seu carro.
 

Em conclusão: o tuning não é uma arte, é uma treta. Artilhar um carro absolutamente normal com umas porcarias, não tem nada de artístico - é apenas uma futilidade pacóvia. Se tem excesso de tempo nas mãos, há hobbies mais proveitosos: por exemplo, aprender um novo idioma, ou melhor ainda, ler e aprender a escrever no seu próprio idioma. Garanto que obterá maiores recompensas a longo prazo, do que através duma moda parola, e totalmente inútil, como o tuning. Ganhe juízo, e deixe de brincar com bonecas-carros. Até as mulheres aprendem mais cedo ou mais tarde, que o mundo não consiste de barbies.

publicado por bom condutor às 19:36

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