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Os portugueses adoram fatalidades e choradinhos, na boa tradição latina e católica. Adoram examiná-los, dissecá-los, e sobretudo partilhá-los. Quando não têm desgraças próprias, focam-se nas dos outros. Um acidente rodoviário - quanto mais grave melhor - é o expoente máximo da tendência do português para rebolar-se na tragédia alheia.
 
Conheço alguns que até se desviam do seu caminho, mesmo que vão com pressa, só para assistirem de bancada. Páram, acendem um cigarro, e analisam cada detalhe mórbido, cada amolgadela e marca de travagem no asfalto, quais Sherlock Holmes a resolver um crime.
 
Há porém, duas grandes diferenças: 1) não vivem em Baker Street; e 2) não resolvem porra nenhuma. Tudo o que fazem é recolher pormenores para debates acalorados com os outros detectives à beira da estrada, ou mais tarde na tasca.
 
Esta compulsão mórbido-merdo-neurótica torna-se ainda mais nefasta quando, por algum motivo, não podem parar e sair do caminho. Quantas vezes deparamos com uma fila misteriosa, em vias rápidas como a 2ª circular, e vimos a descobrir que se deve apenas aos palhaços que abrandam para ver um acidente? Nem é preciso ser na via deles; se for na via oposta ainda abrandam mais.
 
Os mais optimistas dirão que este comportamento abominável se consegue melhorar através de pedagogia, campanhas de sensibilização, etc. Porém, nem vejo pedagogia nenhuma, nem acredito que melhorasse. É um problema social, estrutural, merdo-tugal: faz parte da rasquice inerente a um país de parolos. É como tentar explicar ao Sr. Jaquim que vê o Big Show Sic, que devia antes ver a ópera no canal 2. É inútil.
 
Mas não desespere - eu tenho a solução: além do triângulo e do colete, passa a ser obrigatório andar com um penico cheio e uma colher dentro do carro. Pode-se fazer umas caixas próprias, para abafar o cheiro. Depois, se tiver um acidente, coloque firmememente o triângulo, vista o colete, e deixe-se estar com o penico cheio e a colher em punho. De cada vez que um energúmeno parar a olhar, sirva-o generosamente. Adicione um bónus aos que levam a janela aberta.

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2 comentários

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De Torre a 23.09.2008 às 16:55

Eu costumo chamar-lhes os orçamentistas de ocasião... Muito gostam de mandar "bitaites" sobre o sofrimento alheio: "Tchhh... Isto... Optícas, piscas, capot... Tchhh... Isto é coisa praí para 500 contos!... Mais, se for na marca!"
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De Gil Nunes a 24.09.2008 às 12:36

Obrigado pelo seu comentário.

De facto, os condutores portugueses são absolutamente desastrosos, fruto também da falta de civismo e de boas maneiras. Penso que o fenómeno social se dilata a todos os cenários do dia-a-dia, passando infelizmente para as estradas onde muitas vezes quem se acaba por trama são os condutores sensatos.

Parabéns pelo blog vou adiciona-lo na lista de amigos.

Abraço

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